O Fio de Luz já passou por um incêndio, pela devastação dos madeireiros, pela tempestade Lesley que deitou abaixo as árvores mais velhas, e este ano, pela seca prolongada e total falta de água nos dois charcos ali existentes.
Estive dois meses sem lá ir porque não quis confrontar-me com a morte das árvores que entretanto fui plantando.
Esperei a chegada de chuvas mais intensas na crença de que a natureza tem sempre a capacidade de ressuscitar a mais árida das paisagens. E finalmente revisitei o Fio de Luz com a sensação de estar a visitar um hospital de campanha cheio dos feridos da vida. Quando lá cheguei dei com a alfazema uma das primeiras plantas que plantei, expandido pelo dobro do espaço. À volta o verde tornava irrisório todo o castanho que chega com a seca das plantas e árvores que não aguentaram a falta de água. Despedi-me de algumas das árvores que morreram, maioritariamente de fruto, mas dei muito mais as boas-vindas a todas as surpresas que o Fio de Luz continua a oferecer e das quais não vou voltar a duvidar que continuem a aparecer: no solo estendem-se jarros do campo que prevejo virem a tornar a paisagem quase exótica, alguns bolbos que por ali espalhei rebentam com uma frescura que transforma os meses de seca num produto da nossa imaginação, os girassóis que rebentam pela segunda vez este ano e aqui acho que foi mesmo para o dia do meu regresso, as árvores autóctones que nasceram depois dos incêndios, deram um pulo enorme e hão-de fazer boa sombra, nos dias mais austeros do próximo verão, em algumas árvores mortas descobre-se a persistência na existência de pequenos rebentos que brotam da base do tronco que lhes hão-de servir de suporte quando e a água já corre alegre no ribeirinho onde espero que as tartarugas que já ali vi, regressem a um lar onde se possam sentir seguras. Segurança é o que nenhum de nós sente. Nem as pessoas, nem nenhum pássaro, muito menos uma raposa. Não há aqui nenhuma desilusão! Direciono o meu pensamento às árvores mortas e agradeço toda a aprendizagem que me ofereceram. A estevinha essa continua a tomar conta do terreno e, começo a arrancar alguns arbustos para que os jarros do campo possam continuar o seu caminho. Acabo por ficar duas horas à chuva a arrancar a estevinha tão útil que foi nos primeiros anos de regeneração do solo e sinto que a mesma água que provocou o milagre que agora vejo à minha volta, há-de ajudar-me a mim, também.