Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn

O Fio de Luz já passou por um incêndio, seguido da devastação dos madeireiros, pela tempestade Lesley que deitou abaixo as árvores mais velhas e, este ano, por uma seca prolongada e a total ausência de água no ribeiro e nos dois charcos ali existentes.
Estive dois meses sem lá ir porque não quis confrontar-me com a morte das árvores que fui plantando., depois do incêndio. Aceitei a minha falta de coragem e esperei.
Chegada as chuvas mais intensas, na crença de que a natureza tem sempre a capacidade de ressuscitar a mais árida das paisagens, regressei. Finalmente fui ao Fio de Luz com a sensação de estar a visitar um hospital de campanha cheio dos feridos da vida. Assim que nele entrei, à minha frente, apareceu a alfazema, uma das primeiras plantas que plantei, expandida pelo dobro do espaço. À volta o verde tornava irrisório a parte descolorada pela seca do verão. Despedi-me de algumas das árvores que morreram, as nogueiras, os castanheiros, o freixo, as cerejeiras, a pereira e a ameixieira. Agradeci-lhes tudo que com elas aprendi. O que aprendi acompanha-nos em silêncio. E de seguida, dei as boas-vindas a todas as surpresas que o Fio de Luz continua a oferecer. Prometi não voltar a duvidar da sua capacidade de renascer e de se tornar ainda mais generoso. Ali, tudo contraria a loucura das pessoas a viver, no resto do mundo:: no solo estendem-se jarros do campo que prevejo virem a tornar a paisagem quase exótica, alguns bolbos que por ali espalhei rebentam agora a oferecer-me uma nova primavera, os girassóis germinam pela segunda vez, este ano, e ouço-lhes “dizer” que aguardavam o dia do meu regresso,, as árvores autóctones que nasceram depois dos incêndios, deram um salto igual ao dos adolescentes que de um dia para o outro explodem em tamanho, os phisalis trepam a figueira e estão quase a dar fruto, em algumas árvores mortas descobri a persistência na existência de pequenos rebentos que brotam da base do tronco, um dia eles serão as árvores da sua própria árvore sofrida de tanto calor. Os charcos estão quase cheios e a água já corre alegre no ribeirinho onde espero que as tartarugas que já ali vi, regressem a um lar onde se possam sentir seguras. Segurança é o que nenhum de nós sente. Nem as pessoas, nem nenhum pássaro, muito menos uma raposa. Mas aqui, neste sítio não há nenhuma desilusão! A estevinha que foi tão útil, nos primeiros anos, depois do incêndio, na regeneração do solo, continua a tomar conta do terreno. Mais do que eu queria. Começo a arrancar alguns arbustos para que os jarros do campo possam continuar o seu caminho. Só um bocadinho que está a chover. Acabo, como sempre, por ficar duas horas debaixo da chuva, ensopada, a bebê-la e a aproveitar a moleza da terra ensopada por ela. Regressada de dias que os senti com um sentimento profundo de desadaptação às suas lógicas que não entendo, sinto que a mesma água que provocou o milagre que agora vejo à minha volta, há-de ajudar-me a mim, também.